sexta-feira, 25 de setembro de 2015

A criminalização do aborto e suas consequências

A discussão sobre os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres se ampliou principalmente após as eleições presidenciais de 2014, quando o tópico foi trazido às mesas de discussão e pudemos nos maravilhar com candidatos como Luciana Genro, quarta colocada do primeiro turno da corrida eleitoral, que se mostrou forte defensora do direito das mulheres de total apropriação e arbítrio de seus próprios corpos, o que logicamente é uma vertente pró-aborto e que também procura prover maior proteção contra a violência doméstica e sexual por elas sofridas. Atualmente, a legislação brasileira proíbe praticamente todas as formas e circunstâncias onde o aborto induzido poderia ocorrer, excetuando apenas casos onde a mulher é vítima de estupro, o feto seja anencefálico ou quando a gestação oferece risco de vida.

O fato é que em um Estado onde há uma grande parcela da população ancorada em preceitos religiosos, principalmente cristãos e que há inclusive a presença maciça de religiosos na esfera política, tentando incansavelmente manipular as agendas de acordo com suas crenças e valores de forma fundamentalista, lidar com um assunto como o aborto se torna um tabu concreto e edificado sobre nossa sociedade. O entendimento sobre quão indivíduo é o feto em gestação nas primeiras semanas da gravidez arrasta a discussão sobre o aborto por milhas e milhas, sem sequer ter chegado perto de um horizonte de consenso mútuo.

De um lado, temos os conservadores que alegam que há um ser humano consciente e digno de proteção como pessoa viva desde o momento da fecundação. Estes afirmam, com suas bíblias enfiadas sob seus sovacos, que o aborto é um ato tão desprezível quanto o assassinato frio de uma criança indefesa. Do outro lado, há um movimento de empoderamento feminino de seus corpos, podendo escolher livremente se aquele é o momento ideal para ter um filho.

Em meio à gritaria gerada por esse profundo desentendimento, há mulheres, por vezes meninas, tendo seus sorrisos roubados e medos alimentos à medida que suas barrigas crescem. Existem garotas que aguardam sentadas em clínicas ilegais e decadentes de aborto, que serão submetidas a processos nada higiênicos, realizados por pessoas que muitas vezes sequer cursaram qualquer disciplina da saúde. O aborto só é extremamente perigoso para as mães pobres, são elas que não tem condição de pagar valores exorbitantes para serem atendidas por médicos profissionais (mesmo que ainda na ilegalidade). A classe alta o faz também ilegalmente, mas o dinheiro as proporciona um conforto e uma segurança que estão a anos luz de populações carentes e desamparadas, que além de tudo, não podem se dar ao luxo de passar minimamente mal durante o processo, uma vez que se forem para o hospital correm o risco de serem presas, com pena de 1 a 3 anos.

O aborto é uma questão de saúde pública. A partir do momento que 1 em cada 7 brasileiras já se submeteu a algum processo abortivo, tem-se a realidade de que uma parcela massiva da população feminina está não somente exposta aos perigos de clínicas ilegais, mas cometendo um ato criminoso perante os olhos do Estado.

Exposto de forma superficial o cenário deprimente brasileiro é possível se revoltar ainda mais com o nosso real foco desta publicação: O novo projeto de lei que aborda as questões do aborto e do amparo à mulher estuprada, de autoria do nosso tão querido presidente da câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

O novo projeto de lei agrava ainda mais a criminalização do aborto. Através do impedimento da discussão sobre o assunto, se aprovado, o PL 5069/2013 torna ainda mais difícil o acesso à proteção dos profissionais de saúde, uma vez que intensifica as penas destinadas aos que auxiliarem o processo abortivo de qualquer maneira, INCLUINDO AQUELES PROVENIENTES DE ESTUPRO. SIIIIIM MEUS QUERIDOS O PROJETO INVIABILIZA O ATENDIMENTO A VITIMAS DE ESTUPRO, ESTAMOS RETROCEDENDO NA VELOCIDADE DA LUZ! O novo projeto de lei da uma voadora na Lei 12.845/2013, que regulamenta o procedimento de médicos e profissionais de saúde no atendimento às vítimas de violência sexual, inclusive para a realização do abortamento legal. 

É de dar nó na garganta o extremismo egoísta imposto sobre os corpos de cada cidadã, ainda mais ao ver um projeto de lei tão, tão.... ai jesus, me ajuda. Bom, à nós resta a luta, o grito, o manifesto. Torceremos para que esse projeto não passe e que façam um bom uso dele como papel reciclado (assim como do nosso querido Eduardo Cunha, beijão fofo).

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Enquanto azaramos a votação do projeto de Cunha,  podemos pedir pra todas as deusas abençoarem aqueles lindos cachos de Jean Wyllys (PSOL-RJ), que agora balançam pelo congresso com o Projeto de Lei 882/2015, que permite a interrupção da gravidez pelo SUS até a 12ª semana de gestação. GO JEAN!

BIBLIOGRAFIA:

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